A qualidade de um campo esportivo reflete a jogabilidade do mesmo, ou seja, “como o campo joga”. Este parâmetro depende da avaliação daqueles que utilizam o campo para o evento “jogo” – os atletas – sendo, portanto, um parâmetro subjetivo.

A subjetividade na avaliação da qualidade do campo por atletas depende de fatores externos como, por exemplo, o desempenho destes atletas em determinadas ocasiões.

Um jogador de golfe, portanto, pode atribuir ao campo parte do seu mau desempenho em um determinado dia de jogo, alegando que a jogabilidade do campo não é aceitável.

Figura 1 – Condição a qual o gramado é submetido em uma partida de futebol americano.

Figura 1 – Condição a qual o gramado é submetido em uma partida de futebol americano.

Há muito tempo tenta-se descobrir as variáveis associadas ao uso e qualidade dos campos e quantificar valores para sua avaliação, eliminando então a subjetividade na avaliação da qualidade de um gramado.

Pesquisas em sua maior parte no norte da Europa, USA e Oceania são desenvolvidas há mais de 50 anos na tentativa de compreender os atributos da qualidade dos gramados e seu uso.

Entendendo o uso dos gramados

Após pesquisas preliminares em aspectos do gramado como sua construção, estrutura, manutenção, etc., entendeu-se que os resultados obtidos não se traduziam durante a temporada de uso do gramado (especificamente futebol e rugby na Europa e Austrália). Entendeu-se então que um novo fator alterava e randomizava a resposta do gramado com os parâmetros da pesquisa. Esse novo fator seria conhecido como “USO”.
O uso do gramado, anteriormente chamado apenas de tráfego, pode tanto aumentar as correlações investigadas pela pesquisa, diminuí-las ou até mesmo invertê-las ou eliminá-las.
Desde então, o “uso do gramado” vem sendo considerado juntamente com o manejo de água os fatores chaves da qualidade de um campo esportivo. O fator “uso” engloba o tráfego sofrido pelo campo, a injúria sofrida por equipamentos usados no jogo (tacos de golfe, hóquei e pólo) e as operações de manutenção e cuidados do campo (maquinário, irrigação, operações, etc.).

Figura 2– Injúria sofrida por equipamentos usados no jogo (golfe).

Figura 2– Injúria sofrida por equipamentos usados no jogo (golfe).

A qualidade do gramado então pode ser descrita como no modelo abaixo:

uso

Sendo os fatores do solo sempre mais importantes e decisivos que os fatores da planta por duas razões básicas:

1) serem determinantes na qualidade do gramado e

2) serem determinantes no impacto dos jogadores durante uma partida.

Entretanto, há alguns esportes que se diferenciam por seus fatores de grama influenciarem mais na jogabilidade do que os fatores de solo (exemplo: golfe, cricket). Ainda assim, os fatores de solo são mais importantes.

 

Quantificando a qualidade de um campo esportivo

Em esportes onde há grande interação da bola com a superfície gramada, há fatores essenciais como altura do quique de bola, rolagem de bola, desaceleração da bola, etc., embora cada um desses padrões varie de esporte para esporte (golfe, futebol, tênis, baseball, etc.).

A maior preocupação em esportes que geram impacto jogador/superfície se resume na dureza da superfície, resistência ao cisalhamento, torções e rotações, e pressão vertical exercida na superfície.

A superfície deve sempre ser entendida como solo+gramado. Estudos complicados vêm sendo realizados na tentativa de se obter uma medida precisa de simulação de uso – em outras palavras, vêm se tentando construir uma máquina que simule todas as forças exercidas pelos jogadores na superfície, em uma determinada modalidade esportiva.

As áreas de turfgrass, agronomia, solos, e inclusive medicina (relacionada às lesões) se preocupam em determinar esses padrões.

Os dois fatores mais importantes no solo são umidade e infiltração de água. Tais fatores variam de acordo com a construção do solo e com o uso e manejo durante o tempo.

Geralmente, temos que um solo com menor umidade, é detentor de uma melhor infiltração, admitindo-se que a água está sendo constantemente drenada. Essa é uma característica de solos mais arenosos e é extremamente importante para o gramado.

A infiltração de água é reduzida em solos mais orgânicos ou que se tornaram compactados durante o tempo, sendo naturalmente mais úmidos, e tendo dificuldades com drenagem, o fato é que o gramado sofre com tal cenário, e os fatores avaliados na jogabilidade também decrescem.

Figura 3– Irrigação em gramado esportivo. É necessário conhecer bem a infiltração do com o decorrer do uso do campo.

Figura 3– Irrigação em gramado esportivo. É necessário conhecer bem a infiltração do com o decorrer do uso do campo.

No Brasil, as primeiras experiências nesse sentido começam a ser formuladas, numa parceria com universidades nos USA, buscando encontrar métodos adequados de construção que resultem em uma melhor qualidade dos gramados após determinado.

Voltaremos com mais informações nesse sentido, mas por hora, é importante que se compreenda que a construção e a manutenção de gramados caminham juntas, bem como o solo e grama na formação da superfície de jogo.

Além disso, os fatores externos, o uso e o manejo de água afetam todas essas relações, e tomar atitudes sem considerar todos estes fatores pode ocasionar em perda de tempo e dinheiro.

Philipe Carvalho Ferreira Aldahir é engenheiro agrônomo formado pela UFLA e especilaista em gramados e campos de golfe.